POINT-OF-CARE NA URGÊNCIA: O QUE MUDA QUANDO O RESULTADO SAI EM MINUTOS
POINT-OF-CARE NA URGÊNCIA: O QUE MUDA QUANDO O RESULTADO SAI EM MINUTOS
Em uma sala de emergência lotada, o tempo entre a chegada do paciente e a decisão clínica é uma das variáveis mais críticas do cuidado. Cada minuto de espera por um resultado laboratorial pode significar atraso no início de um tratamento, permanência prolongada no setor e, em casos extremos, maior risco de morte. É nesse cenário que o point of care testing (POCT), o exame realizado à beira do leito, sem a necessidade de enviar a amostra ao laboratório central, tem se consolidado como uma ferramenta estratégica para os serviços de urgência e emergência.
A superlotação dos prontos-socorros é um problema reconhecido internacionalmente e está associada a piores desfechos de mortalidade, como descrevem St John e Price em revisão publicada na acutecaretesting.org. Boa parte desse atraso vem do turnaround time (TAT), o intervalo entre a coleta da amostra e a liberação do resultado, que pode facilmente ultrapassar uma hora quando depende do transporte até o laboratório central e do processamento em lote.
Um ensaio clínico randomizado conduzido no Hospital Siriraj, na Tailândia, e publicado no Western Journal of Emergency Medicine, comparou pacientes atendidos com POCT e pela rotina laboratorial convencional. O tempo mediano de permanência no pronto-socorro foi de 240 minutos no grupo POCT contra 395,5 minutos no grupo controle, diferença estatisticamente significativa. Uma metanálise que reuniu mais de 19 mil pacientes de nove estudos, oito deles ensaios randomizados, encontrou resultado semelhante: a decisão sobre a disposição do paciente foi tomada, em média, 40 minutos mais rápido no grupo POCT, sem aumento das taxas de reinternação em sete dias, o que ajuda a afastar a hipótese de que a rapidez comprometeria a segurança do paciente.
Do lado econômico, um estudo sul-africano publicado na Scandinavian Journal of Trauma, Resuscitation and Emergency Medicine, que reanalisou dados de um ensaio randomizado, mostrou que, ao considerar o tempo de equipe economizado, certas combinações de POCT upfront (realizado antes mesmo da avaliação médica) se tornaram mais custo-efetivas do que o fluxo diagnóstico tradicional. O achado desloca o debate do custo isolado do reagente para o custo total do processo assistencial.
Na sepse, o nível de lactato e sua depuração nas primeiras horas de tratamento são fortemente associados à mortalidade, mesmo sem hipotensão franca. Estudos publicados na Revista Brasileira de Terapia Intensiva mostram que pacotes de ressuscitação guiados por lactato, iniciados logo nas primeiras horas, podem melhorar de forma expressiva a sobrevivência, e que valores entre 2,0 e 3,9 mmol/L em pacientes com suspeita de infecção já se associam a mortalidade significativa. Como o protocolo de sepse depende de reavaliações seriadas desse marcador, o tempo de resposta do exame passa a integrar diretamente a estratégia terapêutica.
Na síndrome coronariana aguda, a troponina cardíaca segue sendo o biomarcador de referência, com acurácia diagnóstica elevada acima do percentil 99, conforme revisão da Revista Médica de Minas Gerais, que aponta sensibilidade clínica acima de 90% com os ensaios ultrassensíveis. Revisão da acutecaretesting.org destaca que o valor do POCT de troponina cresce com a sensibilidade analítica dos ensaios, com estratégias de exclusão de infarto relatadas em janelas de apenas uma hora, associadas a redução do tempo de permanência e mais pacientes liberados com segurança para casa.
Os benefícios do POCT são mais evidentes quando integrado a mudanças de processo, como protocolos de triagem que já solicitam o exame no primeiro contato com o paciente, e quando o resultado chega de forma eletrônica e imediata à equipe assistencial. Colocar o dispositivo à disposição do setor, sem ajustar o fluxo assistencial ao redor dele, tende a limitar o ganho real de tempo.
ichroma e AFIAS: essa tecnologia na prática
Plataformas de imunoensaio POCT, como as linhas ichroma e AFIAS, da Boditech, ilustram bem como esses achados científicos se traduzem em rotina clínica. Ambas entregam resultados quantitativos de marcadores relevantes para a urgência, como troponina, D-dímero e proteína C reativa, em poucos minutos, a partir de uma amostra colhida à beira do leito. Isso aproxima o fluxo assistencial real do cenário descrito nos estudos citados acima: menos tempo de espera pelo laudo, decisão clínica mais ágil e possibilidade de repetir o exame ao longo do atendimento sem depender do transporte da amostra até o laboratório central.
Referências
CHAISIRIN, W. et al. Role of Point-of-Care Testing in Reducing Time to Treatment Decision-Making in Urgency Patients: A Randomized Controlled Trial. Western Journal of Emergency Medicine, v. 21, n. 2, p. 404-410, 2020.
GOLDSTEIN, L. N.; WELLS, M.; VINCENT-LAMBERT, C. The cost-effectiveness of upfront point-of-care testing in the emergency department: a secondary analysis of a randomised, controlled trial. Scandinavian Journal of Trauma, Resuscitation and Emergency Medicine, v. 27, n. 110, 2019.
IMPACT of point-of-care panel tests in ambulatory care: a systematic review and meta-analysis. Estudo de revisão sistemática e metanálise, 2020.
REVISTA MÉDICA DE MINAS GERAIS. Marcadores bioquímicos do infarto agudo do miocárdio. RMMG, [s.d.].
SCIELO BRASIL. Lactato é o alvo para ressuscitação precoce na sepse. Revista Brasileira de Terapia Intensiva.
SCIELO BRASIL. Valor prognóstico da hiperlactatemia em pacientes graves. Revista Brasileira de Terapia Intensiva.
ST JOHN, A.; PRICE, C. P. Benefits of point-of-care testing in the Emergency Department. Acutecaretesting.org, mar. 2018.