TRIAGEM LABORATORIAL NA SAÚDE DO IDOSO: QUAIS EXAMES O LABORATÓRIO CLÍNICO NÃO PODE IGNORAR NO CHECK-UP GERIÁTRICO

TRIAGEM LABORATORIAL NA SAÚDE DO IDOSO: QUAIS EXAMES O LABORATÓRIO CLÍNICO NÃO PODE IGNORAR NO CHECK-UP GERIÁTRICO

O envelhecimento populacional brasileiro não é mais uma projeção distante: é uma realidade que reorganiza toda a cadeia de saúde. Segundo o IBGE, a população com 60 anos ou mais saltou de 22 milhões para 34,1 milhões entre 2012 e 2024, um crescimento de 53,3% em pouco mais de uma década. Hoje, os idosos representam 16,1% da população brasileira, e quem chega aos 60 anos pode esperar viver, em média, mais 22,6 anos. A expectativa de vida ao nascer atingiu 76,6 anos em 2024 e segue em ascensão.

Mais anos de vida, no entanto, não significam automaticamente mais anos de vida saudável. A longevidade traz consigo uma curva crescente de doenças crônicas não transmissíveis, polifarmácia, declínio funcional e vulnerabilidade clínica. É precisamente nesse cenário que o laboratório clínico ocupa um papel insubstituível: a triagem laboratorial periódica é uma das ferramentas mais custo-efetivas para detectar precocemente condições que, em idosos, costumam se apresentar de forma insidiosa e atípica.

Antes de listar exames, é fundamental compreender um ponto frequentemente subestimado: o envelhecimento fisiológico altera parâmetros laboratoriais de maneiras que podem induzir ao erro de interpretação. Massa muscular reduzida falseia a creatinina sérica. Níveis de TSH fisiologicamente mais elevados na senescência podem ser erroneamente classificados como hipotireoidismo subclínico. A anemia pode ter origem multifatorial e não ser percebida clinicamente até estágios avançados.

Portanto, o check-up geriátrico eficaz não é apenas uma lista de exames, é uma leitura contextualizada dos resultados, considerando a biologia do envelhecimento.

 

  1. Hemograma completo 

O hemograma é o exame de maior rendimento diagnóstico em idosos e a base de qualquer triagem hematológica. A anemia é altamente prevalente nessa população: dados da Pesquisa Nacional de Saúde (PNS/IBGE) demonstraram prevalência significativa de anemia em adultos e idosos brasileiros, com aumento progressivo conforme a faixa etária, utilizando os critérios da OMS (hemoglobina < 13,0 g/dL em homens e < 12,0 g/dL em mulheres).

Estudos brasileiros regionais reforçam esse panorama: uma análise em idosos de Ivaí-PR registrou prevalência de anemia de 19,57% nas mulheres e 16,73% nos homens avaliados. Outra investigação, em Viçosa-MG, evidenciou que o aumento da prevalência de anemia com a idade é mais acentuado em homens, fenômeno explicado, em parte, pela menor perda de sangue menstrual nas mulheres após a menopausa.

Além da hemoglobina e do hematócrito, parâmetros como VCM (volume corpuscular médio), HCM, RDW e a contagem de reticulócitos orientam o diagnóstico diferencial entre anemias carenciais (ferro, vitamina B12, folato), anemia de doença crônica e causas medulares, todas comuns no idoso.

O hemograma também rastreia leucocitoses e leucopenias, sinalizando infecções (frequentemente silenciosas no idoso) ou malignidades hematológicas.

 

  1. Glicemia de jejum e hemoglobina glicada (HbA1c) 

O diabetes mellitus tipo 2 é uma das condições de maior impacto na saúde do idoso. Dados do VIGITEL 2023, incorporados à Diretriz da Sociedade Brasileira de Diabetes (SBD) de 2025, revelam uma prevalência de 30,4% de diabetes em indivíduos com 65 anos ou mais no Brasil, praticamente um em cada três idosos.

A HbA1c é especialmente valiosa nesse contexto por dois motivos: reflete o controle glicêmico dos últimos três meses (reduzindo a influência de variações agudas) e dispensa o jejum. Valores ≥ 6,5% confirmam o diagnóstico de diabetes, enquanto a faixa entre 5,7% e 6,4% caracteriza o pré-diabetes, condição igualmente prevalente e associada a risco cardiovascular aumentado mesmo antes da progressão para o diabetes franco.

A SBD recomenda HbA1c < 7,5% como meta em idosos funcionalmente independentes. Para aqueles com maior fragilidade ou expectativa de vida reduzida, metas mais brandas são indicadas para evitar hipoglicemias, um risco particularmente grave nessa faixa etária.

Importante: em idosos com anemias hemolíticas ou déficit de ferro, a HbA1c pode estar falsamente alterada. Nesses casos, a glicemia de jejum e o TOTG complementam a avaliação.

 

  1. Perfil lipídico

Dislipidemias são silenciosas e altamente prevalentes em idosos, alimentando o risco cardiovascular acumulado ao longo da vida. O perfil lipídico completo, colesterol total, LDL-colesterol, HDL-colesterol e triglicerídeos, é indispensável no check-up geriátrico, tanto para diagnóstico quanto para monitoramento de terapia hipolipemiante.

O LDL-colesterol continua sendo o principal alvo terapêutico nas diretrizes brasileiras. Em idosos com doença cardiovascular estabelecida, as metas são mais rigorosas, reforçando a necessidade de monitoramento laboratorial regular.

 

  1. Função renal: creatinina + TFG estimada

Esse é um dos pontos de maior armadilha laboratorial na geriatria. A creatinina sérica é filtrada pelos rins, mas também depende da massa muscular para sua produção. Em um idoso sarcopênico, a creatinina pode estar dentro dos limites de referência mesmo com função renal significativamente comprometida.

O correto, portanto, é calcular a taxa de filtração glomerular estimada (TFGe) por equações validadas, sendo a CKD-EPI a mais recomendada atualmente. Uma TFGe < 60 mL/min/1,73m², mantida por mais de três meses, define Doença Renal Crônica (DRC), condição que aumenta substancialmente o risco cardiovascular e exige ajuste de doses medicamentosas.

Pesquisadores brasileiros têm avaliado as limitações das fórmulas tradicionais em idosos. Um estudo publicado na Revista Brasileira de Geriatria e Gerontologia comparou as equações CKD-EPI, BIS1 e MDRD em idosos e demonstrou que a BIS1 apresentou melhor correlação com a queda da TFG conforme o avanço etário, sendo uma ferramenta auxiliar promissora para estimativa mais precisa da função renal nessa população.

A urinálise (EAS) complementa a avaliação renal: a detecção de proteinúria ou hematúria pode indicar lesão glomerular mesmo na ausência de queda na TFGe.

 

  1. Função tireoidiana: TSH e T4 livre 

O hipotireoidismo é o distúrbio tireoidiano mais prevalente e cresce expressivamente com a idade. No Brasil, sua prevalência é estimada em 5% na população geral e em até 15% em indivíduos com mais de 60 anos, segundo dados do Ministério da Saúde. Em mulheres acima de 75 anos, até 21% podem apresentar TSH elevado.

O grande desafio laboratorial e clínico é que os níveis de TSH aumentam fisiologicamente com o envelhecimento. Um TSH de 5,0 mUI/L pode representar hipotireoidismo subclínico em um adulto jovem, mas ser perfeitamente normal para um indivíduo de 80 anos. Por isso, os limites de referência do TSH devem ser interpretados com critério populacional e etário.

A conduta recomendada é: dosar TSH como triagem inicial; se elevado, complementar com T4 livre para diferenciar hipotireoidismo franco (TSH elevado + T4L baixo) de subclínico (TSH elevado + T4L normal). O anti-TPO pode ser adicionado para investigar autoimunidade tireoidiana, a tireoidite de Hashimoto é a etiologia mais comum em regiões com suficiência de iodo, como o Brasil.

Atenção: suplementos de biotina (vitamina B7) podem interferir em ensaios imunométricos de TSH e T4, gerando resultados falsamente alterados, um ponto cada vez mais relevante dado o uso crescente de suplementos por idosos.

 

  1. 25-hidroxivitamina D

A dosagem de 25-OH vitamina D é uma das mais indicadas, e ainda subutilizadas, no check-up geriátrico. Ao contrário do senso comum, o Brasil não está imune à hipovitaminose D. Um estudo clássico conduzido em São Paulo demonstrou que 71,2% dos idosos institucionalizados e 43,8% dos ambulatoriais apresentavam níveis de 25-OH vitamina D abaixo do mínimo recomendado (50 nmol/L).

A deficiência de vitamina D no idoso tem consequências clínicas diretas: menor absorção intestinal de cálcio, comprometimento da mineralização óssea, maior risco de quedas (pela ação sobre a musculatura) e aumento do risco de fraturas, uma das principais causas de morbimortalidade e perda de autonomia em idosos.

Estudos mostram que idosos têm capacidade reduzida de sintetizar vitamina D3 na pele pela ação dos raios UVB, em parte pelo uso de protetor solar, menor exposição solar e alterações metabólicas. A reposição deve ser guiada pela dosagem sérica, com metas > 30 ng/mL segundo a SBEM para a população geriátrica.

 

  1. Vitamina B12

A deficiência de vitamina B12 é comum em idosos, especialmente naqueles em uso crônico de metformina ou inibidores de bomba de prótons, com atrofia gástrica ou dieta vegetariana/vegana. Clinicamente, pode se manifestar como neuropatia periférica, déficit cognitivo ou anemia megaloblástica.

Como a deficiência pode progredir silenciosamente por anos, a triagem laboratorial tem papel preventivo decisivo. Níveis séricos abaixo de 200 pg/mL são fortemente sugestivos de deficiência; valores entre 200 e 300 pg/mL configuram zona cinzenta que merece acompanhamento ou complementação com ácido metilmalônico (AMM), marcador mais sensível.

 

  1. PSA

O Antígeno Prostático Específico (PSA) segue sendo o principal marcador laboratorial no rastreamento do câncer de próstata. A Sociedade Brasileira de Urologia recomenda que homens a partir dos 50 anos (ou 45 anos para negros e aqueles com histórico familiar de primeiro grau) discutam com seu médico os benefícios e limitações do rastreamento com PSA,uma decisão compartilhada e individualizada.

Após os 75 anos, o rastreamento é indicado apenas para homens com expectativa de vida superior a 10 anos. O câncer de próstata é o mais incidente em homens brasileiros (excluindo tumores de pele não melanoma), e o diagnóstico precoce mantém impacto significativo nas opções e prognóstico do tratamento.

 

  1. Proteína C-reativa ultrassensível (PCR-us)

O envelhecimento se associa a um estado de inflamação crônica de baixo grau, fenômeno denominado inflammaging, que contribui para doenças cardiovasculares, sarcopenia e declínio cognitivo. A PCR ultrassensível é um marcador acessível e bem estabelecido de risco cardiovascular e inflamação sistêmica.

Valores elevados podem ainda sinalizar infecções subclínicas, doenças autoimunes ou neoplasias ocultasm condições frequentemente silenciosas no idoso. Sua dosagem agrega valor ao check-up como ferramenta de estratificação de risco, especialmente quando associada ao perfil lipídico.

 

  1. Urinálise (EAS) 

O exame de urina tipo 1 (EAS) fecha o painel do check-up geriátrico. Ele permite detectar infecções do trato urinário (frequentemente oligossintomáticas em idosos), proteinúria (sinal de doença renal ou cardiovascular), hematúria (que pode indicar neoplasia urológica) e alterações metabólicas como glicosúria.

 

Solicitar os exames certos é apenas metade do trabalho. A outra metade está na interpretação qualificada, que considera os valores de referência adequados para a faixa etária, as interferências medicamentosas comuns nessa população (polifarmácia) e a biologia do envelhecimento.

O laboratório clínico que opera com qualidade analítica rigorosa, metodologias calibradas, controles de qualidade internos e externos, profissionais aptos a contextualizar resultados limítrofes, é parceiro indispensável do geriatra e de todos os profissionais envolvidos no cuidado ao idoso.

O check-up geriátrico laboratorial não é um protocolo engessado: é uma estratégia individualizada que combina os exames fundamentais descritos acima com a história clínica, os fatores de risco e as condições funcionais de cada paciente. Mas alguns marcadores não podem faltar: hemograma, glicemia/HbA1c, perfil lipídico, função renal com TFGe, TSH, vitamina D, vitamina B12, PSA (para homens), PCR-us e urinálise formam a espinha dorsal de uma triagem laboratorial geriátrica responsável.

À medida que o Brasil envelhece, a medicina laboratorial precisa estar preparada para esse perfil de pacientem com sensibilidade analítica, rastreabilidade metrológica e uma compreensão aprofundada das particularidades do organismo que envelhece. O diagnóstico in vitro, quando bem aplicado, não apenas detecta doenças: contribui para que mais pessoas vivam mais e melhor.

 

REFERÊNCIAS

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