NT-PROBNP: POR QUE ESSE MARCADOR MUDOU O DIAGNÓSTICO DA INSUFICIÊNCIA CARDÍACA NO LABORATÓRIO CLÍNICO

NT-PROBNP: POR QUE ESSE MARCADOR MUDOU O DIAGNÓSTICO DA INSUFICIÊNCIA CARDÍACA NO LABORATÓRIO CLÍNICO

A insuficiência cardíaca (IC) é uma síndrome silenciosa e devastadora. No Brasil, estima-se uma prevalência de aproximadamente 2 milhões de pacientes, com cerca de 240.000 novos casos diagnosticados por ano. Entre adultos com mais de 60 anos, a prevalência chega a 3,3%, e a mortalidade hospitalar por descompensação pode variar de 9% a 17% nas séries nacionais, números que colocam o país entre os cenários mais desafiadores para o manejo dessa condição no mundo em desenvolvimento.

Globalmente, o quadro é igualmente preocupante: em 2021, dados epidemiológicos estimaram que aproximadamente 57 milhões de pessoas foram afetadas pela IC, com projeção de aumento de 34% nas próximas décadas impulsionado pelo envelhecimento populacional e pela maior sobrevida pós-eventos coronarianos.

Diante desse cenário, uma pergunta persiste no cotidiano clínico: como distinguir, com rapidez e segurança, a dispneia cardíaca das demais causas de falta de ar? Por décadas, a resposta veio apenas da clínica, da radiografia de tórax e do ecocardiograma, exames que nem sempre estão disponíveis a tempo. Foi nesse contexto que o NT-proBNP emergiu como um divisor de águas no diagnóstico laboratorial da IC.

Para entender por que esse biomarcador transformou a prática clínica, é preciso retornar à biologia cardíaca básica. Quando o miocárdio sofre estresse mecânico, seja por sobrecarga de volume, pressão elevada de enchimento ou disfunção sistólica, os cardiomiócitos sintetizam uma molécula precursora chamada proBNP108. Essa pró-hormona é clivada por uma protease (a furina) em dois fragmentos:

A chave está nessa diferença estrutural: enquanto o BNP possui mecanismos ativos de depuração (receptores de peptídeos natriuréticos e endopeptidases circulantes), o NT-proBNP não possui clearance ativo, resultando em uma meia-vida de 60 a 120 minutos, frente a apenas 18 minutos do BNP. Isso se traduz em concentrações circulantes substancialmente mais elevadas e, do ponto de vista laboratorial, em muito maior estabilidade pré-analítica.

A escolha entre BNP e NT-proBNP vai além da biologia: ela tem implicações diretas na logística laboratorial e na confiabilidade dos resultados.

O NT-proBNP demonstra estabilidade superior nas condições reais de manejo de amostras. Enquanto o BNP armazenado por 48 horas a temperatura ambiente ou a 4°C apresenta perda de concentração de pelo menos 20%, as amostras de NT-proBNP permanecem estáveis à temperatura ambiente por vários dias, podendo inclusive ser transportadas para laboratórios centrais sem necessidade de processamento imediato em gelo. Isso representa uma vantagem operacional relevante para a realidade brasileira, com suas distâncias geográficas e cadeias de coleta externas.

Outro ponto importante: pacientes em uso de sacubitril/valsartana (Entresto®), uma combinação de inibidor de neprilisina com bloqueador do receptor de angiotensina, aprovada para IC com fração de ejeção reduzida — têm os níveis de BNP artificialmente elevados, pois o sacubitril inibe a endopeptidase que normalmente degrada o BNP. O NT-proBNP não sofre essa interferência, sendo o marcador recomendado para monitoramento desses pacientes.

O marco histórico da incorporação do NT-proBNP na prática clínica remonta ao início dos anos 2000. O estudo PRIDE (ProBNP Investigation of Dyspnea in the Emergency Department), publicado por Januzzi e colaboradores em 2005 no American Journal of Cardiology, avaliou 599 pacientes que chegaram ao pronto-socorro com dispneia. Os resultados foram contundentes:

A confirmação em escala global veio com o International Collaborative of NT-proBNP Study, também coordenado por Januzzi, que analisou 1.256 pacientes em quatro centros de três continentes. A estratégia de pontos de corte estratificados por idade, 450 pg/mL para pacientes com menos de 50 anos, 900 pg/mL para 50–75 anos, e 1.800 pg/mL para maiores de 75 anos — resultou em sensibilidade de 90% e especificidade de 84% para o diagnóstico de IC aguda. O ponto de corte universal de 300 pg/mL, independente da idade, manteve valor preditivo negativo de 98% para exclusão da síndrome.

Hoje, o NT-proBNP está integrado nas principais diretrizes cardiológicas mundiais como componente obrigatório do fluxo diagnóstico da IC.

A Diretriz da Sociedade Europeia de Cardiologia (ESC) de 2021 recomenda um ponto de corte de NT-proBNP <125 pg/mL para excluir IC crônica em pacientes sintomáticos ambulatoriais, com sensibilidade de 94,6% e especificidade de 50% em grandes coortes de atenção primária. Para IC aguda no pronto-socorro, o limiar para exclusão permanece em <300 pg/mL.

Reconhecendo que os níveis de NT-proBNP aumentam fisiologicamente com a idade, e que 27% dos homens e 45% das mulheres com 65 anos ou mais apresentam NT-proBNP acima de 125 pg/mL mesmo sem IC, a Heart Failure Association da ESC publicou em 2023 um algoritmo prático com limiares de confirmação ajustados por idade para IC crônica:

Faixa etária Limiar de confirmação (rule-in)
< 50 anos ≥ 125 pg/mL
50–74 anos ≥ 250 pg/mL
≥ 75 anos ≥ 500 pg/mL

 

Essa abordagem, validada em uma coorte de 155.347 pacientes na Inglaterra, reduziu substancialmente o número de encaminhamentos desnecessários para avaliação especializada sem comprometer o diagnóstico de casos clinicamente relevantes.

Um dos papéis mais relevantes do NT-proBNP hoje é justamente no subtipo de IC mais subestimado: a IC com fração de ejeção preservada (ICFEp), que corresponde a aproximadamente 50% de todos os casos de IC globalmente. O ecocardiograma frequentemente não detecta anomalias óbvias nesse perfil de paciente, tornando o diagnóstico dependente de critérios funcionais e biomarcadores.

Nesses casos, o NT-proBNP atua como marcador de pressões de enchimento elevadas e estresse parietal, sendo um dos pilares do algoritmo diagnóstico tanto nas recomendações do ACC/AHA/HFSA quanto da ESC, onde valores ≥125 pg/mL para pacientes não agudos suportam o diagnóstico de ICFEp quando associados a achados clínicos e ecocardiográficos compatíveis.

O NT-proBNP não se limita ao diagnóstico. Sua capacidade prognóstica está igualmente consolidada. Níveis elevados ao longo do acompanhamento ambulatorial ou à alta hospitalar associam-se a maior risco de readmissão e morte cardiovascular. Estudos demonstram que pacientes que alcançam reduções significativas nos níveis de NT-proBNP ao longo do tratamento apresentam desfechos clínicos marcadamente melhores, dados que sustentam o conceito de terapia guiada por biomarcadores na IC com fração de ejeção reduzida.

Esse uso serial do NT-proBNP representa uma mudança de paradigma: o laboratório deixa de ser apenas o emissor de um resultado pontual e passa a ser um parceiro na tomada de decisão terapêutica contínua.

Interpretar o NT-proBNP com competência exige conhecer seus interferentes. Diversas condições não cardíacas podem elevar o marcador, entre elas:

A interpretação do NT-proBNP, portanto, deve sempre ocorrer no contexto clínico global, não como exame isolado, mas como parte de uma avaliação integrada que pode incluir ecocardiografia, ECG e dados clínicos.

Para laboratórios clínicos, a oferta de NT-proBNP com acurácia analítica, rastreabilidade metrológica e prazo de resposta adequado não é apenas uma questão técnicam é um posicionamento estratégico. Em um país onde a IC representa uma das principais causas de hospitalização e onde o diagnóstico frequentemente chega tardio, o laboratório que disponibiliza esse marcador com qualidade e interpretação suportada por valores de referência atualizados contribui diretamente para melhores desfechos clínicos.

A integração do NT-proBNP em painéis de triagem para dispneia no pronto-socorro, em protocolos de acompanhamento ambulatorial de pacientes com IC conhecida, e em estratégias de rastreamento em populações de risco (diabéticos, hipertensos, pacientes com doença renal crônica) representa o presente, e o futuro, da cardiologia laboratorial.

O NT-proBNP é um dos casos mais bem documentados de tradução bem-sucedida da biologia molecular para a prática clínica. Em menos de duas décadas, passou de biomarcador promissor a componente obrigatório das diretrizes cardiológicas globais, com evidências sólidas de desempenho diagnóstico, valor prognóstico e utilidade no monitoramento terapêutico.

Para o profissional de saúde que solicita o exame, para o gestor de laboratório que o oferece, e para o paciente que espera uma resposta, compreender o que esse número representa é compreender o quanto a bioquímica clínica pode salvar vidas.

 

REFERÊNCIAS

SANTOS, S. C.; VILLELA, P. B.; OLIVEIRA, G. M. M. Mortalidade por Insuficiência Cardíaca e Desenvolvimento Socioeconômico no Brasil, 1980 a 2018. Arquivos Brasileiros de Cardiologia, Rio de Janeiro, v. 117, n. 4, p. 711–721, 2021.

GIRARDI, J. M. et al. Hospitalizações e Mortalidade Hospitalar por Insuficiência Cardíaca no Brasil: Um Panorama Atualizado. Arquivos Brasileiros de Cardiologia, Rio de Janeiro, v. 122, n. 5, 2025. doi: 10.36660/abc.20240644.

AZEVEDO, P. S. et al. Insuficiência Cardíaca no Brasil: Como Podemos Melhorar sua História Natural? Arquivos Brasileiros de Cardiologia, Rio de Janeiro, v. 121, n. 10, 2024. doi: 10.36660/abc.20240644.

JANUZZI JR., J. L. NT-proBNP — A New Test for Diagnosis, Prognosis and Management of Congestive Heart Failure. USC Journal of Medicine, Los Angeles, v. 1, n. 1, 2006. Disponível em: https://www.uscjournal.com/articles/nt-probnp-new-test-diagnosis-prognosis-and-management-congestive-heart-failure.

MUELLER, T. et al. Long-term stability of endogenous B-type natriuretic peptide (BNP) and amino terminal proBNP (NT-proBNP) in frozen plasma samples. Clinical Chemistry and Laboratory Medicine, Berlin, v. 42, n. 8, p. 942–944, 2004.

LABS, M. (University of Michigan). Cardiac NT-Pro B-type Natriuretic Peptide. MLabs, Ann Arbor, 2024. Disponível em: https://mlabs.umich.edu/tests/nt-pro-b-type-natriuretic-peptide-bnp.

JANUZZI JR., J. L. et al. The N-terminal Pro-BNP investigation of dyspnea in the emergency department (PRIDE) study. American Journal of Cardiology, New York, v. 95, n. 8, p. 948–954, 15 abr. 2005. doi: 10.1016/j.amjcard.2004.12.032.

JANUZZI JR., J. L. et al. NT-proBNP testing for diagnosis and short-term prognosis in acute destabilized heart failure: an international pooled analysis of 1256 patients: the International Collaborative of NT-proBNP Study. European Heart Journal, Oxford, v. 27, n. 3, p. 330–337, fev. 2006. doi: 10.1093/eurheartj/ehi631.

McDONAGH, T. A. et al. 2021 ESC Guidelines for the diagnosis and treatment of acute and chronic heart failure. European Heart Journal, Oxford, v. 42, n. 36, p. 3599–3726, 2021. doi: 10.1093/eurheartj/ehab368.

TAYLOR, C. J. et al. Age-adjusted natriuretic peptide thresholds for a diagnosis of heart failure in the community: Diagnostic accuracy study. ESC Heart Failure, Oxford, 27 jul. 2025. doi: 10.1002/ehf2.15383.

GUPTA, M.; KUMAR, D.; GUPTA, T. Optimizing the Use of N-terminal Pro-B-Type Natriuretic Peptide (NT-proBNP) in the Diagnosis of Heart Failure With Preserved Ejection Fraction (HFpEF): A Clinical Pathway Approach to an Underdiagnosed Entity. Cureus, [S.l.], v. 17, n. 12, e99161, 13 dez. 2025. doi: 10.7759/cureus.99161.

KUWAHARA, K. et al. proBNP Levels in Heart Failure Practice. Journal of Cardiac Failure, Philadelphia, v. 31, n. 8, p. 1450–1462, 2025. doi: 10.1016/j.cardfail.2025.03.xxx.

Rua Coronel Gomes Machado, 358
Centro - Niterói - RJ
Brasil - CEP: 24020-112

+55 21 3907-2534
0800 015 1414

Rua Cristóvão Sardinha, 110
Jardim Bom Retiro - São Gonçalo - RJ
Brasil - CEP: 24722-414

+55 21 2623-1367
0800 015 1414
Grupo Biosys Kovalent | 2026

Desenvolvidopela Asterisco

Para o topo