ALÉM DA AFERIÇÃO DA PRESSÃO: O PAPEL DO LABORATÓRIO NA INVESTIGAÇÃO E SEGUIMENTO DO PACIENTE HIPERTENSO
ALÉM DA AFERIÇÃO DA PRESSÃO: O PAPEL DO LABORATÓRIO NA INVESTIGAÇÃO E SEGUIMENTO DO PACIENTE HIPERTENSO
A imagem é familiar em qualquer consultório brasileiro: o esfigmomanômetro envolto no braço, o silêncio enquanto o profissional aufere a pressão, o número anotado no prontuário. A aferição da pressão arterial é, sem dúvida, o gesto inaugural, e indispensável, no encontro com a hipertensão. Mas reduzir o cuidado do paciente hipertenso a esse instante seria como julgar um livro pela capa: uma simplificação que oculta a profundidade do que está em jogo.
Segundo a Pesquisa Nacional de Saúde (PNS) de 2019, conduzida pelo IBGE em parceria com o Ministério da Saúde, 23,9% da população adulta brasileira referia diagnóstico médico de hipertensão arterial, o equivalente a aproximadamente 38,1 milhões de pessoas. A prevalência cresceu em relação à PNS de 2013, quando era de 21,4%, e avança expressivamente com a idade: atinge 56,6% das pessoas entre 65 e 74 anos e 62,1% daquelas com 75 anos ou mais.
Em setembro de 2025, a Sociedade Brasileira de Cardiologia (SBC), em conjunto com a Sociedade Brasileira de Hipertensão (SBH) e a Sociedade Brasileira de Nefrologia (SBN), publicou a nova Diretriz Brasileira de Hipertensão Arterial – 2025, que reclassificou os níveis pressóricos: valores de pressão arterial sistólica entre 120 e 139 mmHg ou diastólica entre 80 e 89 mmHg passaram a ser considerados pré-hipertensão. A mudança não é meramente nominal: ela amplia a população sob vigilância clínica e laboratorial, antecipando o início de intervenções preventivas. E é exatamente nesse ponto, onde a pressão deixa de ser apenas um número e passa a ser um marcador sistêmico, que o laboratório clínico assume protagonismo.
Da medida ao mapa: por que o laboratório importa
A hipertensão arterial sistêmica (HAS) raramente vem sozinha. Ela conversa com o metabolismo da glicose, com o perfil lipídico, com a função renal, com o equilíbrio eletrolítico, com a função tireoidiana e, em alguns casos, com causas secundárias específicas. As Diretrizes Brasileiras de Hipertensão Arterial, tanto a edição de 2020 quanto a atualização de 2025, recomendam que toda avaliação inicial do paciente hipertenso inclua um conjunto mínimo de exames laboratoriais, com objetivos bem definidos: estratificar o risco cardiovascular global, identificar lesões em órgãos-alvo (LOA), rastrear causas secundárias e estabelecer parâmetros basais para o monitoramento terapêutico.
Esse painel mínimo contempla:
- Análise de urina (EAS), com pesquisa de proteinúria e sedimento urinário;
- Potássio sérico, fundamental antes do início de diuréticos e inibidores do sistema renina-angiotensina-aldosterona;
- Creatinina sérica e estimativa da taxa de filtração glomerular (TFG) pela equação CKD-EPI;
- Glicemia de jejum e hemoglobina glicada (HbA1c), para rastreio de diabetes — comorbidade que multiplica o risco cardiovascular;
- Perfil lipídico completo (colesterol total, HDL, LDL e triglicerídeos);
- Ácido úrico sérico, marcador de risco cardiometabólico;
- Eletrocardiograma de repouso.
A leitura conjunta desses parâmetros transforma a hipertensão de um diagnóstico isolado em um mapa clínico: revela quem o paciente é metabolicamente, o que seus órgãos já sofreram e qual o caminho terapêutico mais seguro.
A função renal: sentinela silenciosa
O rim é, simultaneamente, vítima e cúmplice da hipertensão. A elevação crônica da pressão danifica a microcirculação glomerular, ao passo que disfunções renais perpetuam e agravam a hipertensão. As diretrizes da Kidney Disease: Improving Global Outcomes (KDIGO), em sua atualização de 2024, orientam que a avaliação do paciente vá além da creatinina sérica isolada, recomendando-se o uso conjunto da medida de albumina urinária e da estimativa do ritmo de filtração glomerular para o rastreio adequado da doença renal crônica.
A microalbuminúria, definida como excreção urinária de albumina entre 30 e 300 mg/g de creatinina, é um marcador precoce não apenas de lesão renal incipiente, mas também de risco cardiovascular aumentado. Detectá-la oportunamente significa intervir antes que a lesão se torne irreversível.
No portfólio Kovalent, a investigação da função renal é sustentada por reagentes bioquímicos para Creatinina (Jaffé e PAP), Ureia UV e Microalbuminúria por imunoturbidimetria, compatíveis com toda a família de analisadores MyKov. A análise de urina automatizada pelo MyKov U5600, que integra tira reativa, sedimento por imagem digital e bioquímica em um único sistema, permite a triagem completa do EAS com parâmetros como proteína, sangue, glicose, leucócitos e relação proteína/creatinina (P/C), ferramenta valiosa para o acompanhamento longitudinal do paciente hipertenso.
O eletrólito que pode mudar a conduta
O potássio sérico é, talvez, o parâmetro mais subestimado e, ao mesmo tempo, mais decisivo no manejo do hipertenso. As Diretrizes Brasileiras recomendam sua dosagem antes do início e durante o seguimento de tratamentos com diuréticos tiazídicos (que tendem à hipocalemia) ou com inibidores da ECA, BRAs e antagonistas mineralocorticoides (que tendem à hipercalemia). A hipocalemia espontânea ou desproporcional ao tratamento diurético é, ainda, um sinalizador clássico de hiperaldosteronismo primário, causa secundária subdiagnosticada de hipertensão.
A dosagem de eletrólitos por Eletrodos Íon-Seletivos (ISE) diretos, princípio metodológico do analisador Biossays E6, oferece medição em tubo primário fechado, com leitura anaeróbica que preserva a estabilidade especialmente do cálcio iônico e do pH. Para laboratórios de menor porte ou ambientes de retaguarda hospitalar, a linha EasyStat/EasyBloodGas complementa o portfólio com dosagens de Na⁺, K⁺, Cl⁻, Ca²⁺ e gases sanguíneos.
Risco metabólico: o quadro completo
A hipertensão raramente caminha sozinha. Dados da PNS 2019 mostram que 14,6% da população adulta, o equivalente a 23,2 milhões de pessoas, referia diagnóstico médico de colesterol alto, e 7,7% (12,3 milhões) referia diabetes. A coexistência desses fatores eleva exponencialmente o risco cardiovascular.
A Diretriz Brasileira de Dislipidemias e Prevenção da Aterosclerose – 2025, publicada pela SBC em outubro de 2025, traz mudanças relevantes: estabeleceu metas mais rigorosas para o LDL-colesterol e introduziu a categoria de “risco extremo”, voltada a pacientes que já tiveram infarto, AVC ou múltiplos eventos cardiovasculares. A nova diretriz também incorporou a apolipoproteína B (apoB) como ferramenta de diagnóstico e estratificação de risco, e recomenda a dosagem de Lp(a) ao menos uma vez na vida em todos os pacientes. Outra mudança operacional importante: o perfil lipídico não exige mais jejum, exceto quando os triglicerídeos estão acima de 440 mg/dL, situação em que a coleta deve ser repetida em jejum.
Para o paciente hipertenso, portanto, o painel laboratorial deve incluir:
- Perfil lipídico completo (Colesterol total, HDL-C, LDL-C direto, Triglicerídeos), idealmente com apoB e Lp(a);
- Glicemia de jejum e HbA1c, para detecção de pré-diabetes e diabetes;
- Ácido úrico, marcador independente associado a desfechos cardiovasculares.
Todos esses parâmetros estão disponíveis na linha MyKov de Bioquímica, com analisadores que vão dos modelos compactos (MyKov Lite, Plus) aos de alta produtividade (MyKov 240, 360, 450, 600M), atendendo desde laboratórios de pequeno porte até grandes redes. A medida da Lp(a) pelo reagente de imunoturbidimetria Lp(a) 21 complementa a estratificação de risco residual conforme a nova diretriz.
Quando suspeitar de causa secundária
Estima-se que entre 5% e 10% dos casos de hipertensão tenham origem em uma causa secundária identificável. A investigação ampliada está indicada em situações específicas: hipertensão de início precoce (<30 anos) ou tardio (>55 anos), hipertensão resistente ao tratamento, hipocalemia espontânea, lesão grave de órgãos-alvo desproporcional ao tempo de doença e sinais clínicos sugestivos de endocrinopatias.
Nesse cenário, o laboratório pode ser chamado a investigar:
- Função tireoidiana (TSH, T4 livre) — disponível nas plataformas POCT ichroma e AFIAS, com resultados quantitativos em 12 a 15 minutos a partir de soro, plasma ou sangue total;
- Cortisol sérico — para rastreio de síndrome de Cushing, disponível na plataforma AFIAS;
- Aldosterona/atividade de renina plasmática — para investigação de hiperaldosteronismo primário;
- Catecolaminas e metanefrinas urinárias por HPLC — para rastreio de feocromocitoma, parâmetros disponíveis na linha de cromatografia DiaSys/Chromsystems comercializada pelo Grupo Kovalent.
Do diagnóstico ao seguimento: o laboratório como aliado contínuo
O cuidado com o hipertenso não termina no diagnóstico. As Diretrizes Brasileiras recomendam reavaliação laboratorial periódica, anual na maioria dos casos, ou em intervalos mais curtos diante de mudanças terapêuticas, instabilidade clínica ou comorbidades específicas. Essa repetição não é burocracia: é o que permite ao clínico ajustar doses, identificar efeitos adversos precocemente, detectar progressão de lesão de órgão-alvo e validar a adesão.
Para o laboratório clínico, isso significa um compromisso com rastreabilidade analítica, padronização entre métodos e tempo de resposta clinicamente útil. A escolha de reagentes calibrados em referência a materiais certificados, analisadores com controle de qualidade interno robusto e plataformas integradas ao LIS do laboratório não é luxo técnico, é parte da entrega clínica.
O laboratório como extensão do raciocínio clínico
Aferir a pressão é o começo. Compreender o paciente hipertenso em sua totalidade exige que o laboratório clínico atue como uma extensão do raciocínio médico, fornecendo, com confiabilidade analítica e relevância clínica, os dados que transformam um número no esfigmomanômetro em um plano terapêutico individualizado.
Para os laboratórios brasileiros que assumem essa responsabilidade, contar com soluções analíticas integradas, validadas e suportadas por uma estrutura nacional de manufatura e assistência técnica é o que garante que cada exame entregue não seja apenas um resultado, mas uma resposta clínica acionável.
Porque, no fim, cuidar do hipertenso é muito mais do que medir uma pressão. É ler, em cada exame, a história que o corpo tem a contar.
REFERÊNCIAS
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