O PAPEL DA UROANÁLISE AUTOMATIZADA NA DETECÇÃO PRECOCE DA DOENÇA RENAL CRÔNICA
O PAPEL DA UROANÁLISE AUTOMATIZADA NA DETECÇÃO PRECOCE DA DOENÇA RENAL CRÔNICA
A doença renal crônica configura uma das mais graves epidemias silenciosas do século XXI. Segundo análise do Global Burden of Disease publicada no The Lancet em 2025, estimavam-se 788 milhões de adultos com DRC no mundo em 2023, quase o dobro dos 378 milhões registrados em 1990, com prevalência global padronizada por idade de 14,2%. Em igual período, a doença representou a nona principal causa de morte global, respondendo por aproximadamente 1,48 milhão de óbitos. Apesar dessa magnitude, estima-se que mais da metade dos portadores desconhece sua condição, em virtude do caráter assintomático nos estágios iniciais, o que consolidou a DRC no imaginário clínico como um “assassino silencioso”. A detecção precoce é, portanto, uma necessidade estratégica: as diretrizes KDIGO 2024 reconhecem que o rastreamento da DRC atende plenamente aos critérios da OMS para triagem de doenças, uma vez que métodos diagnósticos acurados e de baixo custo estão disponíveis e intervenções terapêuticas precoces são capazes de modificar o curso da enfermidade.
O KDIGO 2024 define DRC como a presença de anormalidades na estrutura ou função renal por período superior a três meses, com implicações para a saúde. O diagnóstico exige pelo menos um dos seguintes critérios: TFGe inferior a 60 mL/min/1,73m² ou marcadores de dano renal, com destaque para albuminúria persistente (RACu igual ou superior a 30 mg/g). A classificação utiliza o sistema CGA, Causa, categoria de TFG (G1 a G5) e categoria de Albuminúria (A1 a A3), que permite estratificar individualmente o risco de progressão e de mortalidade cardiovascular. Dados do Chronic Kidney Disease Prognosis Consortium, com mais de 27 milhões de indivíduos em 114 coortes, demonstraram que os riscos para desfechos adversos se intensificam de maneira gradual e aditiva com a piora combinada de TFGe e albuminúria, justificando a avaliação simultânea dessas duas variáveis no acompanhamento de todos os pacientes com DRC ou sob risco de desenvolvê-la.
Em sua configuração contemporânea, a uroanálise compreende três etapas complementares: análise física (cor, aspecto e densidade), análise química por fita reagente e exame do sedimento urinário por microscopia. A automação transformou substancialmente a acurácia e a reprodutibilidade desse exame. Os analisadores automatizados de fita reagente realizam a leitura por reflectância espectrofotométrica, eliminando a variabilidade da interpretação visual e permitindo integração direta com sistemas de informação laboratorial. Terracina e colaboradores, em revisão publicada na Biomedicines em 2023, descrevem essas plataformas como dotadas de alta capacidade de processamento, com algoritmos de validação que identificam automaticamente amostras suspeitas e sinalizam aquelas que devem ser encaminhadas para confirmação quantitativa. A microscopia urinária automatizada avança ainda mais, capturando imagens digitais do sedimento e classificando partículas, eritrócitos, leucócitos, cilindros, cristais, bactérias, por meio de softwares de reconhecimento de padrão baseados em inteligência artificial.
Analisadores como o MyKov U5600 exemplificam esse avanço: o sistema realiza a análise integrada da fita reagente e do sedimento urinário por microscopia digital automatizada, com captura de imagens e classificação de elementos figurados, eritrócitos, leucócitos, cilindros, cristais e células epiteliais. por meio de algoritmos de reconhecimento de padrão, reduzindo o tempo de análise e aumentando a padronização dos resultados.
Entre os achados da uroanálise com relevância nefrológica, a albuminúria ocupa posição central. O rim saudável é praticamente impermeável à albumina; quando a barreira de filtração glomerular é comprometida, ocorre excreção urinária de albumina em quantidades patológicas. A detecção de albuminúria moderada e persistente (RACu entre 30 e 300 mg/g) constitui o marcador mais precoce de nefropatia glomerular, precedendo em anos o declínio da TFGe em condições como a nefropatia diabética. As diretrizes KDIGO 2024 recomendam, para a avaliação inicial, a análise por fita reagente com leitura automatizada ou a mensuração da RACu, preferencialmente na primeira urina da manhã. Resultados positivos na fita devem ser confirmados por método quantitativo. Poorolajal e colaboradores documentaram, em revisão sistemática, sensibilidade da fita reagente para albuminúria entre 40% e 87%, com especificidade de 75% a 96%; a RACu apresentou sensibilidade de 74% a 90% e especificidade entre 77% e 88%.
Além da proteinúria, a hematúria microscópica e a presença de cilindros urinários fornecem informações diagnósticas insubstituíveis: cilindros eritrocitários são patognomônicos de glomerulonefrite ativa, enquanto cilindros granulares grosseiros ou céreos indicam dano renal significativo. Conforme destacado por Dewi e colaboradores em revisão narrativa de 2025, a presença desses elementos no sedimento pode ser o primeiro sinal de doença renal subjacente em pacientes assintomáticos.
O respaldo científico para o uso da uroanálise automatizada no rastreamento da DRC é consistente. Revisão sistemática publicada na Kidney Medicine em 2025 por Korsa e colaboradores, incluindo 24 estudos de 11 países, demonstrou que a uroanálise por fita reagente identificou prevalência confirmada de DRC variando de 4,4% a 17,1% nas populações rastreadas. O rastreamento dirigido a populações de alto risco, especialmente diabéticos e hipertensos. identificou o dobro da prevalência de DRC em comparação ao rastreamento populacional indiscriminado.
Suka e colaboradores, em estudo de larga escala publicado em 2025 no Clinical and Experimental Nephrology, encontraram associação significativa entre positividade da fita reagente para proteína e progressão da doença renal em seguimento longitudinal. Na fronteira tecnológica, Jang e colaboradores demonstraram, em estudo no JAMIA em 2023, que algoritmos de aprendizado de máquina aplicados aos resultados brutos da fita urinária melhoraram substancialmente a acurácia diagnóstica para DRC, antecipando um futuro em que os sistemas automatizados não apenas leem, mas inferem diagnósticos com suporte de inteligência artificial. Biomarcadores emergentes como KIM-1 e NGAL urinários, revisados por Claudel e colaboradores no Kidney International Reports em 2024, adicionam uma camada de sensibilidade ainda maior, detectando lesão tubular em fases nas quais a TFGe permanece preservada.
A integração progressiva desses marcadores às plataformas automatizadas, somada ao desenvolvimento de algoritmos de apoio à decisão clínica, projeta a uroanálise como ferramenta de diagnóstico de precisão na nefrologia preventiva.
A uroanálise automatizada representa, na atualidade, um dos pilares da nefrologia preventiva. Sua capacidade de detectar marcadores precoces de dano renal em exames de rotina ou em programas de rastreamento dirigido, aliada à reprodutibilidade e à escalabilidade conferidas pela automação, confere-lhe potencial de impacto clínico e epidemiológico considerável. As diretrizes KDIGO 2024 consolidam a avaliação combinada de TFGe e albuminúria como eixo central do diagnóstico e monitoramento da DRC, atribuindo à uroanálise automatizada um papel formal e insubstituível nesse processo. Diante da magnitude crescente do fardo global da DRC, a expansão do acesso a laboratórios com sistemas automatizados de uroanálise e a implementação de programas de rastreamento dirigido a populações de risco figuram entre as intervenções de maior custo-efetividade disponíveis para mitigar o impacto dessa doença silenciosa sobre a saúde global.
REFERÊNCIAS
BELLO, A. K. et al. Global, regional, and national burden of chronic kidney disease in adults, 1990–2023: a systematic analysis for the Global Burden of Disease Study 2023. The Lancet, 2025. DOI: 10.1016/S0140-6736(25)01853-7.
CLAUDEL, S. E. et al. Systematic review of urinary biomarkers KIM-1 and NGAL for detection of chronic kidney disease of uncertain etiology among agricultural communities. Kidney International Reports, v. 9, p. 84–95, 2024.
DEWI, A. P. et al. Clinical interpretation of urinalysis for early detection of kidney disorders: a narrative review. International Journal of Cell and Biomedical Science, v. 4, n. 12, p. 418–427, 2025.
JANG, E. C. et al. Machine-learning enhancement of urine dipstick tests for chronic kidney disease detection. Journal of the American Medical Informatics Association, v. 30, n. 6, p. 1114–1124, 2023.
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KORSA, A. et al. Risk factor-based screening for early detection of chronic kidney disease in primary care settings: a systematic review. Kidney Medicine, v. 7, p. 100979, 2025.
POOROLAJAL, J. et al. A systematic review of screening tests for chronic kidney disease: an accuracy analysis. BMC Medical Imaging, 2021. Disponível em: https://pmc.ncbi.nlm.nih.gov/articles/PMC8344133/.
SUKA, M.; TANAKA, A.; YOSHIDA, T. Efficacy of screening with dipstick urinalysis in predicting adverse kidney outcomes: a large cohort study. Clinical and Experimental Nephrology, 2025. DOI: 10.1007/s10157-025-02703-x.
TERRACINA, S.; MONNOLO, A.; D’AGOSTINO, M. Urine dipstick analysis on automated platforms. Biomedicines, v. 11, n. 4, p. 1174, 2023.