A QUALIDADE DA ÁGUA E O IMPACTO NOS RESULTADOS EM BIOQUÍMICA
A QUALIDADE DA ÁGUA E O IMPACTO NOS RESULTADOS EM BIOQUÍMICA
Nenhum reagente é tão consumido em um laboratório de bioquímica quanto a água, e poucos recebem tão pouca atenção. Ela dilui amostras e reagentes, lava sondas e cubetas, prepara calibradores e controles e, em alguns métodos, participa da própria reação.
O volume impressiona. Em um laboratório de porte médio a grande, os analisadores de alto desempenho podem demandar de 20 a 100 litros de água purificada por hora nos picos de rotina. Com esse fluxo, qualquer desvio de qualidade chega rapidamente a centenas de resultados.
Para o paciente, isso tem um significado direto: um exame de glicose, cálcio ou triglicerídeos só é confiável se a água que passou pelo analisador também for. Para o laboratório, significa retrabalho, recalibração, atraso na liberação de laudos e, no pior cenário, uma nova coleta.
O QUE A ÁGUA CARREGA ATÉ O ANALISADOR
A água da rede de abastecimento contém moléculas orgânicas, íons inorgânicos, partículas, coloides, gases, bactérias e seus subprodutos. Cada um desses grupos pode alterar resultados e causar falhas mecânicas nos equipamentos.
| Contaminante | Exemplos | Efeito típico em bioquímica |
|---|---|---|
| Íons inorgânicos | Cálcio, magnésio, sódio, cloreto | Elevam o branco e deslocam curvas de calibração de eletrólitos e minerais |
| Compostos orgânicos | Ácidos carboxílicos, glicerol, resíduos de resinas e membranas | Alteram a absorbância, sobretudo em métodos lidos no ultravioleta (340 nm) |
| Bactérias e biofilme | Colonização de reservatórios e tubulações | Liberam íons, enzimas e pigmentos; obstruem tubos e válvulas |
| Subprodutos bacterianos | Endotoxinas, fosfatase alcalina bacteriana, corantes fluorescentes | Brancos altos, calibradores fora de faixa, resultados falsamente elevados |
| Partículas e coloides | Sedimentos, fragmentos de filtros | Entupimento de sondas, bolhas e erros de pipetagem |
A composição da água de entrada também varia com a geografia e a estação do ano. Regiões de água dura, ricas em cálcio e magnésio, sobrecarregam o sistema de purificação, e períodos de estiagem tendem a concentrar impurezas.
QUANDO A ÁGUA MUDA O RESULTADO
A maior parte dos ensaios bioquímicos é fotométrica. O analisador mede a absorbância da água como branco e desconta esse valor das leituras seguintes. Se a água estiver contaminada, o erro entra na calibração e se propaga para todas as amostras.
Cálcio e magnésio: a curva que sobe
Na rotina de um analisador, cálcio e magnésio estão entre os testes mais sensíveis à piora da água. A remoção incompleta de cálcio eleva ao mesmo tempo a absorbância do branco e a do calibrador, deslocando a curva para cima. Comparar calibrações sucessivas no software do equipamento é uma forma simples de perceber o problema cedo.
Enzimas lidas a 340 nm
Impurezas orgânicas costumam aparecer como alterações espectrais na região do ultravioleta. Métodos que acompanham a conversão entre NADH e NAD+ a 340 nm, como ALT e AST, estão entre os mais expostos.
Um caso documentado: triglicerídeos após troca de membrana
Um estudo publicado em 2024 na Biochemia Medica acompanhou a troca da membrana de osmose reversa de um sistema que abastecia um analisador bioquímico e um analisador de imunoensaio. Essas membranas costumam ser armazenadas em solução protetora com glicerol, justamente o composto medido no método enzimático GPO-PAP de triglicerídeos.
| Medida | Antes da troca | 0,5 h depois | 10,5 h depois |
|---|---|---|---|
| Controle de TG, nível 1 (mmol/L) | 1,5 | 9,7 (viés de 536%) | não medido |
| Controle de TG, nível 2 (mmol/L) | 2,3 | 10,9 (viés de 371%) | não medido |
| Absorbância do branco de TG | 0,060 | 0,790 | 0,061 |
| TG em 29 amostras de pacientes, mediana (mmol/L) | não medido | 10,6 | 1,6 |
O dado mais revelador é outro: a resistividade da água permaneceu acima de 10 MΩ·cm durante todo o episódio. Os demais testes avaliados, incluindo eletrólitos, glicose, enzimas, marcadores tumorais e hormônios tireoidianos, não foram afetados. A interferência persistia 2,5 horas após a troca e só havia desaparecido na medição de 10,5 horas, depois de produção e descarte contínuos de água, e os autores concluíram que a resistividade, sozinha, não basta para liberar o sistema após uma manutenção.
O QUE DIZEM AS NORMAS
A principal referência internacional é a diretriz CLSI GP40, cuja 5ª edição foi publicada em dezembro de 2024 e substituiu a edição de 2012. O documento abandona a antiga classificação em Tipos I, II e III e adota o conceito de água adequada ao uso pretendido, validada pelo próprio laboratório (CLSI, 2024).
O padrão mínimo para a rotina clínica é a Água Reagente para Laboratório Clínico (CLRW, na sigla em inglês):
| Parâmetro | Especificação CLRW | O que controla |
|---|---|---|
| Resistividade a 25 °C | acima de 10 MΩ·cm | Contaminação iônica |
| Carbono orgânico total (TOC) | abaixo de 500 ppb | Contaminação orgânica |
| Bactérias | abaixo de 10 UFC/mL | Contaminação microbiana |
| Partículas | filtração de 0,22 µm ou mais fina | Material particulado |
No Brasil, a RDC nº 978/2025 da Anvisa, que rege os serviços que executam exames de análises clínicas, determina que o laboratório defina o grau de pureza da água reagente usada nos exames e nos controles da qualidade e implemente as avaliações necessárias para comprovar essa conformidade. Na prática, monitorar a água deixou de ser apenas boa prática e passou a integrar o Programa de Garantia da Qualidade exigido pela vigilância sanitária.
BOAS PRÁTICAS PARA PROTEGER O RESULTADO
A literatura converge em um ponto: a água precisa ser tratada como reagente crítico, com monitoramento, registro e ação corretiva. Algumas medidas fazem diferença na rotina:
- Monitorar mais do que a resistividade. Resistividade indica íons, mas TOC elevado e carga bacteriana podem estar fora da especificação sem alterar esse valor; por isso a CLSI prevê testes periódicos de TOC e de contagem microbiana.
- Usar o próprio analisador como sentinela. Acompanhar a absorbância dos brancos e comparar calibrações sucessivas, principalmente de cálcio, magnésio e métodos a 340 nm, ajuda a detectar desvios antes que cheguem ao laudo.
- Cuidar do caminho até o ponto de uso. Higienizar reservatórios, tubulações e frascos intermediários conforme o fabricante, e evitar que a água fique armazenada por longos períodos.
- Conhecer a água de entrada. Em regiões de água dura ou em épocas de estiagem, dimensionar o pré-tratamento com o fornecedor e manter estoque maior de consumíveis.
- Documentar. Especificação definida, frequência de testes, limites de ação e registros de não conformidade compõem a evidência exigida pela RDC nº 978/2025.
ÁGUA DE QUALIDADE É RESULTADO DE QUALIDADE
Um analisador moderno, reagentes de alto desempenho e uma equipe bem treinada formam a base de um laboratório confiável. A água é o elo que conecta tudo isso e, quando falha, pode transformar um triglicerídeo normal em um valor seis vezes maior sem que o indicador de resistividade dispare qualquer alarme.
Para o profissional de laboratório, a mensagem é clara: especificar, monitorar e registrar a qualidade da água é parte do controle da qualidade analítica. Para o paciente, é a garantia de que o número impresso no laudo reflete o que acontece no seu organismo, e não o que estava na tubulação.
No Grupo Kovalent, acreditamos que a confiabilidade do diagnóstico in vitro depende de cada detalhe do processo. Conte com nossa equipe de especialistas para orientar a instalação e a rotina dos seus sistemas de bioquímica.
Referências
BRASIL. Agência Nacional de Vigilância Sanitária. Resolução da Diretoria Colegiada RDC nº 978, de 6 de junho de 2025. Dispõe sobre os requisitos técnico-sanitários para o funcionamento dos serviços que executam Exames de Análises Clínicas (EAC). Diário Oficial da União, Brasília, DF, 10 jun. 2025. Disponível em: https://anvisalegis.datalegis.net. Acesso em: 28 set. 2026.
CLINICAL AND LABORATORY STANDARDS INSTITUTE. GP40: preparation and testing of reagent water in the medical laboratory. 5. ed. Wayne, PA: CLSI, 2024. Disponível em: https://clsi.org/shop/standards/gp40/. Acesso em: 28 set. 2026.
ELGA LABWATER. Clinical biochemistry. [S. l.]: ELGA LabWater, [s.d.]. Disponível em: https://us.elgalabwater.com/clinical-biochemistry. Acesso em: 28 set. 2026.
INTERNATIONAL ORGANIZATION FOR STANDARDIZATION. ISO 3696: water for analytical laboratory use: specification and test methods. Geneva: ISO, 1987.
JAMES, T. Water: when things go wrong. The Pathologist, Knutsford, 18 nov. 2014. Disponível em: https://thepathologist.com/issues/2014/articles/nov/water-when-things-go-wrong. Acesso em: 28 set. 2026.
LIANG, S. et al. Effects of reverse osmosis membrane replacement of pure water system on clinical chemistry and immunoassay in clinical laboratory. Biochemia Medica, Zagreb, v. 34, n. 1, p. 010705, 2024. DOI: 10.11613/BM.2024.010705. Disponível em: https://pmc.ncbi.nlm.nih.gov/articles/PMC10864026/. Acesso em: 28 set. 2026.
MABIC, S. Water for clinical chemistry. Application note. [S. l.]: Merck Millipore, [s.d.]. Disponível em: https://www.sigmaaldrich.com/deepweb/assets/sigmaaldrich/product/documents/124/112/water-for-clinical-chemistry-ab1002en-ms.pdf. Acesso em: 28 set. 2026.
NABULSI, R.; AL-ABBADI, M. A. Review of the impact of water quality on reliable laboratory testing and correlation with purification techniques. Laboratory Medicine, Oxford, v. 45, n. 4, p. e159-e165, nov. 2014. DOI: 10.1309/LMLXND0WNRJJ6U7X.