O PAPEL DOS EXAMES LABORATORIAIS NA IDENTIFICAÇÃO DE DEFICIÊNCIAS NUTRICIONAIS ASSOCIADAS À SAÚDE MENTAL
O PAPEL DOS EXAMES LABORATORIAIS NA IDENTIFICAÇÃO DE DEFICIÊNCIAS NUTRICIONAIS ASSOCIADAS À SAÚDE MENTAL
Os transtornos mentais representam uma das principais causas de incapacidade global. Dados da Organização Mundial da Saúde indicam que aproximadamente uma em cada oito pessoas vivencia algum transtorno mental, e estima-se que 44% da população experimentará pelo menos um episódio ao longo da vida. Nesse contexto, a psiquiatria nutricional emergiu como área dedicada a compreender como componentes dietéticos influenciam a função cerebral e o bem-estar mental.
O ensaio clínico SMILES, publicado em 2017, representou marco histórico ao demonstrar que intervenções dietéticas podem melhorar sintomas depressivos em pacientes com transtorno depressivo maior.A fundamentação biológica dessa relação reside no fato de que micronutrientes desempenham papéis essenciais em reações enzimáticas responsáveis pela síntese de neurotransmissores, e déficits minerais e vitamínicos têm sido identificados na fisiopatologia dos sintomas depressivos. Os minerais são fundamentais na ativação do fator neurotrófico derivado do cérebro (BDNF), proteína que regula a plasticidade neuronal, cujos níveis séricos encontram-se significativamente mais baixos em pacientes deprimidos,
VITAMINA B12, FOLATO E HOMOCISTEÍNA
A vitamina B12 e o folato constituem elementos centrais no metabolismo do carbono único, via bioquímica essencial para a síntese de neurotransmissores e manutenção da integridade neurológica. A deficiência dessas vitaminas pode resultar em manifestações neuropsiquiátricas diversas, incluindo depressão, ansiedade, psicose e demência. A vitamina B12 é essencial para a síntese de serotonina, dopamina e noradrenalina, cujos desequilíbrios estão relacionados aos transtornos de humor.
A homocisteína plasmática total representa marcador sensível de deficiência funcional de folato e vitamina B12. Utilizando-a como indicador, foi possível identificar um subgrupo biológico de pacientes deprimidos com deficiência de folato, comprometimento da metilação e alterações no metabolismo de neurotransmissores monoaminérgicos. Estudos populacionais demonstraram associação entre níveis elevados de homocisteína e risco aumentado de depressão.
A avaliação laboratorial inclui dosagem sérica de vitamina B12 (valores de referência: 150-700 pmol/L), folato sérico e eritrocitário, e homocisteína plasmática. Valores de homocisteína superiores a 13,9 mmol/L podem indicar deficiência funcional mesmo com níveis séricos normais das vitaminas. A determinação conjunta de ácido metilmalônico aumenta a acurácia diagnóstica em casos duvidosos. Um estudo com 128 adolescentes demonstrou que níveis mais baixos de B12 correlacionaram-se com maior risco de sintomas graves de ansiedade e depressão.
VITAMINA D
A vitamina D tem sido reconhecida como neuroesteróide com funções na regulação do humor. Receptores de vitamina D são amplamente distribuídos no cérebro, incluindo hipocampo, córtex pré-frontal e amígdala (EYLES et al., 2005). Meta-análises demonstraram associação inversa entre níveis séricos de 25-hidroxivitamina D e risco de depressão: cada incremento de 10 ng/mL associou-se a redução de 4% nas chances de depressão.
Uma meta-análise umbrella confirmou que a suplementação de vitamina D produziu redução significativa nos sintomas depressivos (diferença média padronizada: -0,40), enquanto participantes com níveis séricos mais baixos apresentavam chances 60% maiores de depressão. Os mecanismos propostos incluem modulação do BDNF, regulação da síntese de neurotransmissores e atenuação de processos neuroinflamatórios.
A avaliação é realizada através da dosagem sérica de 25(OH)D. Níveis inferiores a 50 nmol/L (20 ng/mL) são considerados deficientes, entre 50-75 nmol/L indicam insuficiência, e superiores a 75 nmol/L são considerados suficientes. A técnica de HPLC-MS/MS representa o padrão-ouro metodológico.
FERRO
O ferro desempenha funções cruciais no metabolismo energético cerebral e na síntese de neurotransmissores, atuando como cofator essencial para as hidroxilases aromáticas responsáveis pela biossíntese de serotonina, dopamina e noradrenalina. Uma análise da base de dados taiwanesa identificou risco significativamente aumentado de transtornos de ansiedade, depressão e distúrbios do sono em pacientes com anemia ferropriva.
Estudos documentaram prevalência de deficiência de ferro quase triplicada em indivíduos deprimidos (48,3%) comparados a controles (17,5%). O painel laboratorial recomendado inclui ferro sérico, capacidade total de ligação do ferro, saturação de transferrina e, crucialmente, ferritina sérica. Níveis de ferritina inferiores a 30 ng/mL definem deficiência, porém evidências sugerem que níveis abaixo de 100 ng/mL já podem associar-se a sintomas de fadiga e alterações de humor. Um estudo piloto relatou que 60% dos indivíduos com ansiedade refratária alcançaram remissão após elevação da ferritina acima de 30 ng/mL.
ZINCO E MAGNÉSIO
O zinco concentra-se em regiões cerebrais importantes para depressão e ansiedade, como hipocampo e amígdala, onde regula a transmissão sináptica. O zinco sérico demonstrou correlação negativa com a gravidade dos sintomas depressivos, e pacientes deprimidos apresentam níveis significativamente mais baixos que controles saudáveis. Os mecanismos incluem modulação de receptores NMDA, influência sobre vias inflamatórias e regulação do BDNF.
O magnésio auxilia na modificação da resposta ao estresse através do eixo hipotálamo-hipófise-adrenal, reduzindo a secreção de ACTH e prevenindo a entrada de hormônios do estresse no cérebro. A repleção dos níveis de magnésio frequentemente associa-se a melhora de sintomas depressivos.
A dosagem sérica de zinco tem valores de referência entre 0,66-1,10 μg/mL. Para magnésio, os valores situam-se entre 1,87-2,4 mg/dL, porém 99% do magnésio corporal encontra-se intracelularmente, limitando a sensibilidade da dosagem sérica isolada.
ÁCIDOS GRAXOS ÔMEGA-3
Os ácidos graxos EPA e DHA são componentes estruturais essenciais das membranas neuronais. O DHA representa cerca de 20% do peso seco cerebral em ácidos graxos, desempenhando papel vital no crescimento neuronal e liberação de neurotransmissores. O conteúdo de ômega-3 no sangue de pacientes deprimidos encontra-se consistentemente reduzido, e o EPA nos fosfolipídios eritrocitários correlaciona-se negativamente com a gravidade da depressão.
Meta-análises revelaram efeito benéfico significativo sobre sintomas depressivos, com evidências mais robustas para formulações com EPA ≥60% do conteúdo total, em doses de 1-2 g/dia. A avaliação pode ser realizada através do índice ômega-3 eritrocitário, com valores-alvo superiores a 8%.
CONSIDERAÇÕES PARA A PRÁTICA CLÍNICA
Um painel laboratorial para avaliação nutricional em saúde mental deveria incluir: hemograma completo, ferritina sérica, vitamina B12, folato sérico, homocisteína plasmática, 25-hidroxivitamina D e magnésio sérico. A determinação de proteína C reativa pode auxiliar na interpretação de resultados, considerando que estados inflamatórios modulam a relação entre nutrientes e saúde mental.
A suplementação, quando indicada, deve ser realizada com monitoramento laboratorial periódico. A abordagem preferencial envolve correção através de modificações dietéticas sustentáveis, reservando suplementação para deficiência grave ou quando adequação dietética não for factível.
A evidência científica estabeleceu que deficiências nutricionais específicas podem contribuir para transtornos mentais, particularmente depressão e ansiedade. Os exames laboratoriais constituem ferramentas essenciais para identificação dessas deficiências, permitindo caracterizar pacientes que podem beneficiar-se de intervenções nutricionais direcionadas. A vitamina B12 e folato integram o metabolismo do carbono único; a vitamina D atua como neuroesteróide; o ferro é cofator na síntese de neurotransmissores; zinco e magnésio modulam a neurotransmissão e resposta ao estresse; os ácidos graxos ômega-3 são componentes estruturais das membranas neuronais.
A incorporação da avaliação laboratorial nutricional na prática psiquiátrica representa avanço em direção a abordagem mais integrativa. Embora não substitua intervenções farmacológicas e psicoterapêuticas, pode representar estratégia adjuvante valiosa, particularmente em pacientes com resposta inadequada às terapias convencionais.
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